segunda-feira, 20 de junho de 2011

do silêncio

Existem diferentes silêncios. Atonal, estridente, rangido, fanho, sedento, tragado ou degustado. Ou silêncio cabe ou não. Tanto pode faltar ou sobrar. Quando falta é como estar sem ar, asfixia. Quando sobra é muita água sem domínio, afoga. A imagem da água sobre o ar, é a água que cai, cachoeira e sua força brutal. O i-ching é sábio por seus silêncios. Não sabe ler o i-ching que não respeita as pausas – momento da hierofania, da criação do lugar. Quantos deuses não evocamos em uma pausa? E eis que o lugar se cria, lugar-oriente, Yi-fu-futricado de referências magistrais da memória. Construídas pelos sentidos. É preciso muito silêncio para se ouvir os sentidos, sobretudo do texto em diante.
Tão mais sentido, quão mais se sabe, pois se sabe sendo e sentido. Repetindo a cosmogonia primordial dos antigos seres ancestrais, sentados juntos em um círculo, na intimidade de um diálogo e na ritualidade dos próprios gestos, construímos um templo, onde o tempo não existe. O silêncio é quem alarda o tempo!
Quando o silêncio demora, ele rompe com a arte das reticências,  sem ter nada interessante a ser dito para reanimar a pausa, o silêncio caduca. Há quando o silêncio esvazia tanto que chega a formar vácuo. E também há tácticas de poder a partir do silêncio, quando o silêncio é calculado, presunçoso, temeroso. Um silêncio mal colocado não engendra mais silêncio, estimula o desassosego. Aparecem outras falas que dizem por ele, atribuindo-o sentidos aleatórios. O silêncio é um espaço aberto, adentram-se nele todas as polissemias possíveis, por efeito de evitar confusão é preciso muita sensibilidade ao lidar com ele. Há que se fazer do silêncio um abismo de liberdade!









 
Shogen perguntou:
"Por que ó homem Iluminado não se ergue e explica sua natureza?"
E então completou:
"Na verdade, não é necessário que as palavras venham da língua..."   

pdf. de Contos Zen budistas.



Silêncio:
cigarras escutam
o canto das rochas.

Matsuo Bashô

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