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É maravilhoso quando no meu jardim consigo ver aver raras, além dos correntes e ainda assim, cordiais pombos. Vi gavião e vi matraca, maritaca, matriarca. Arara verde-azul fundindo o céu e a mata, riscando o vão do espaço. Muitos pensamentos se vão na territorialização do terreno do quintal. Intimamente, cada capim arrancado é a manifestação abstrata de um sentimento difuso, uma sentimentalidade à busca de expressão. Com as braquiaras que se vãoindo - as chamadas ervas daninhas ou 'danadinhas' como se diz em Pernambuco - o espaço vai se abrindo a uma paisagem humanizada pelo meu próprio gesto. A pele da mão engrossa, mas afina-se as emoções, o que faz com que estas mesmas mãos ainda estejam sensibilizadas para delicados carinhos.
Como o carinho de um passarinho.
Como pensar o carinho de um pássaro? Manuelzinho da Crôa, 'o passarinho que ensina carinhos'¹, das pernas compridas e do passo rápido. Quando se aproxima dele, ele já se foi. Será esse seu ensinamento?
¹Trechos de Grande Sertão Veredas em que aparece o passarinho.
"O rio, objeto assim, a gente observou, com uma crôa de areia amarela, e uma praia larga: manhãzando, ali estava re-cheio em instância de pássaros. O Reinaldo mesmo chamou minha atenção. O comum: essas garças, enfileirantes, de toda brancura; o jaburú; o pato-verde, o pato-preto, topetudo; marrequinhos dansantes; martim-pescador; mergulhão, e até uns urubús, com aquele triste preto que mancha. Mas, melhor de todos - conforme o Reinaldo disse - o que é o passarim mais bonito e engraçadinho de rio-abaixo e rio-acima: o que se chama o manuelzinho-da-crôa.
Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era para se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: - "É formoso próprio..." - ele me ensinou. Do outro lado, tinha vargem e lagoas. P'ra e p'ra, os bandos de patos se cruzavam. - "Vigia como são esses..." Eu olhava e me sossegava mais. O sol dava dentro do rio, as ilhas estando claras. - " É aquele lá: lindo!" Era o manuelzinho-da-crôa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa, eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos catando suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea - às vezes davam beijos de binquinquim - a galinholagem deles. - " É preciso olhar para esses com um todo carinho..." - o Reinaldo disse."
(GS:V , 19ª edição, Nova Fronteira, p. 158 e 159)
Brocardos soltos:
“o passarim mais bonito e engraçadinho de rio-abaixo e rio-acima".
"o manuelzinho não é mesmo de todos o passarinho lindo de mais amor?"
Encontro da Biologia e da Literatura no seguinte texto sobre http://www.medicina.ufmg.br/cememor/arquivos/guimaraesMacaricos.pdf
Charadrius collaris, nome científico de Manuelzinho.
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